segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Apostila de História Oral - Parte I

APOSTILA

HISTÓRIA ORAL

Prof. MARCOS ALVITO

PARTE I:

DEFINIÇÕES de História Oral

As três MODALIDADES de História Oral

Rio de Janeiro - 2009


Definições de História Oral

[1] “A história oral foi instituída em 1948 como uma técnica moderna de documentação histórica, quando Allan Nevins, historiador da Universidade de Colúmbia, começou a gravar as memórias de personalidades importantes da história norte-americana.”
(Oral History Association – EUA; citado por THOMPSON,1992:89)

[2] “A história oral é a utilização sistemática da pesquisa oral pelo historiador.”
(JOUTARD In:BURGUIÈRE,1986:495)

[3] “Mais do que uma ferramenta, e menos que uma disciplina.”
(Louiss Starr, citado por TREBITSCH In:FERREIRA,1994:19)

[4] “Por História Oral se entende o trabalho de pesquisa que utiliza fontes orais em diferentes modalidades, independentemente da área de conhecimento na qual essa metodologia é utilizada.”
(Estatuto da Associação Brasileira de História Oral, fundada em 1994, Art.1º, par.1º; In: Revista de História Oral, nº1, 1998:14)

[5] “A história oral é uma história construída em torno de pessoas. Ela lança a vida para dentro da própria história e isso alarga seu campo de ação. Admite heróis vindos não só dentre os líderes, mas dentre a maioria desconhecida do povo. Estimula professores e alunos a se tornarem companheiros de trabalho. Traz a história para dentro da comunidade e extrai a história de dentro da comunidade. Ajuda os menos privilegiados, e especialmente os idosos, a conquistar dignidade e autoconfiança. Propicia o contato – e, pois, a compreensão – entre classes sociais e entre gerações. E para cada um dos historiadores e outros que partilhem das mesmas intenções, ela pode dar um sentimento de pertencer a determinado lugar e a determinada época. Em suma, contribui para formar seres humanos mais completos. Paralelamente, a história oral propõe um desafio aos mitos consagrados da história, ao juízo autoritário inerente a sua tradição. E oferece os meios para uma transformação radical no sentido social da história.”
(THOMPSON,1992:44)

[6] “A história oral só nos relata o trivial sobre as pessoas importantes e as coisas importantes (através da sua própria visão) das pessoas triviais.”
(PRINS,Gwyn In:BURKE,1992:172, resumindo objeções à história oral – das quais PRINS não compartilha)

[7] “a História Oral, no fundo, é um instrumento pós-moderno para se entender a realidade contemporânea. (...) Pós-moderno por sua elasticidade, por sua imprevisibilidade, por sua flexibilidade.”
(CAMARGO,Aspásia In:FERREIRA,1994:75-76)

[8] “Há, segundo me parece, um consenso em que a História Oral é um trabalho de pesquisa, que tem por base um projeto e que se baseia em fontes orais, coletadas em situação de entrevista.”
(LANG,Alice Beatriz da Silva Gordo In:MEIHY,1996:34)

[9] “Em vista deste conjunto de procedimentos, pode-se aventurar uma definição de História Oral como um conjunto de procedimentos que vão desde o planejamento do projeto, a definição da colônia [“um grupo amplo que tenha uma ‘comunidade de destino’], a eleição das redes [subdivisões significativas da “colônia”], o estabelecimento de uma pergunta de corte [um dilema comum, importante e explicativo da experiência coletiva, um recurso básico de unidade dos depoimentos, questão que deve estar presente em todas as entrevistas], a elaboração das entrevistas, a feitura dos textos e a devida guarda, a conferência e a devolução do documento à comunidade que o gerou. No caso de caber análises (...) dependerão do término da fase anterior.”
(MEIHY,José Carlos Sebe Bom In:MEIHY,1996:54)

[10] “Que é, então, a história oral ? É um procedimento válido de investigação no trabalho do historiador e, num sentido secundário, das formas de historiografia criadas criadas por esta investigação. (...) A história oral são as memórias e recordações de gente viva sobre seu passado.”
(SITTON,1989:12)

[11] “Entendida como metodologia, a história oral remete a uma dimensão técnica e a uma dimensão teórica. Esta última evidentemente a transcende e concerne à disciplina histórica como um todo.”
(FERREIRA,M. & AMADO,J. In:FERREIRA & AMADO,1998:viii)

[12] “(...) é possível reduzir a três as principais posturas a respeito do status da história oral. A primeira advoga ser a história oral uma técnica; a segunda, uma disciplina; e a terceira, uma metodologia.”
(FERREIRA,M. & AMADO,J. In:FERREIRA & AMADO,1998:viii)

[13] [i] ”Aos defensores da história oral como técnica interessam as experiências com gravações, transcrições e conservação de entrevistas, e o aparato que as cerca: tipos de aparelhagem de som, formas de transcrição de fitas, modelos de organização de acervo etc. Alguns defensores dessa posição são pessoas envolvidas diretamente na constituição e conservação de acervos orais; muitos são cientistas sociais cujos trabalhos se baseiam em outros tipos de vontes (em geral, escritas) e que utilizam as entrevistas de modo eventual, sempre como fontes de informação complementar. (...) A essas pessoas, entretanto, somam-se as que efetivamente concebem a história oral como uma técnica, negando-lhe qualquer pretensão metodológica ou teórica: ‘A chamada ‘história oral’ não passa de um conjunto de procedimentos técnicos para a utilização do gravador em pesquisa e para a posterior conservação das fitas. Querer mais do que isso é ingressar no terreno da mais pura fantasia. A história oral não possui os fundamentos filosóficos da teoria, nem os procedimentos que [...] possam ser qualificados como metodológicos. Ela é fruto do cruzamento da tecnologia do século XX com a eterna curiosidade do ser humano’ (Roger,William. Notes on oral history. International Journal of Oral History,7(1):23-8,Feb.1986) “
(FERREIRA,M. & AMADO,J. In:FERREIRA & AMADO,1998:xii-xiii)

[14] [ii] “Os que postulam para a história oral o status de disciplina baseiam-se em argumentos complexos (...) parecem partir de uma idéia fundamental: a história oral inaugurou técnicas específicas de pesquisa, procedimentos metodológicos singulares e um conjunto próprio de conceitos; este conjunto, por sua vez, norteia as outras duas instâncias, conferindo-lhes significado e emprestando unidade ao novo campo do conhecimento: ‘Pensar a história oral dissociada da teoria é o mesmo que conceber qualquer tipo de história como um conjunto de técnicas, incapaz de refletir sobre si mesma [...] Não só a história oral é teórica, como constituiu um corpus teórico distinto, diretamente relacionado às suas práticas’” (Mikka,Ian. What on earth is oral history? In: Elliot,James K.(ed.).New trails in history.Sydney:Australian Press,1988.pp.124-136)
(FERREIRA,M. & AMADO,J. In:FERREIRA & AMADO,1998:xiii)

[15] [iii] “Entre os defensores da história oral como metodologia situam-se as autoras desta apresentação e organizadoras do presente livro. (...) A divergência entre os que pensam como nós e os postulantes da história oral como disciplina reside em outro ponto: estes reconhecem na história oral uma área de estudos próprio e capacidade (como o fazem todas as disciplinas) de gerar no seu interior soluções teóricas para as questões surgidas na prática – no caso específico, questões como as imbricações entre história e memória, entre sujeito e objeto de estudo, entre história de vida, biografia e autobiografia, entre diversas apropriações sociais do discurso.
”Em nosso entender, a história oral, como todas as metodologias, apenas estabelece e ordena procedimentos de trabalho – tais como os diversos tipos de entrevista e as implicações de cada um deles para a pesquisa, as várias possibilidades de transcrição de depoimentos, suas vantagens e desvantagens, as diferentes maneiras de o historiador relacionar-se com seus entrevistados e as influências disso sobre seu trabalho -, funcionando como ponte entre teoria e prática. Esse é o terreno da história oral – o que, a nosso ver, não permite classificá-la unicamente como prática. Mas, na área teórica, a história oral é capaz apenas de suscitar, jamais de solucionar, questões; formula as perguntas, porém não pode oferecer as respostas.
As soluções e explicações devem ser buscada onde sempre estiveram: na boa e antiga teoria da história. Aí se agrupam conceitos capazes de pensar abstratamente os problemas metodológicos gerados pelo fazer histórico. (...) Apenas a teoria da história é capaz de fazê-lo, pois se dedica, entre outros assuntos, a pensar os conceitos de história e memória, assim como as complexas relações entre ambos.”
(FERREIRA,M. & AMADO,J. In:FERREIRA & AMADO,1998:xiv-xv)

[16] “(...) é antes um espaço de contato e influências interdisciplinares (...) com ênfase nos fenômenos e eventos que permitam, através da oralidade, oferecer interpretações qualitativas de processos histórico-sociais. Para isso, conta com métodos e técnicas precisas, em que a constituição de fontes e arquivos orais desempenha um papel importante. (...) a história oral, ao se interessar pela oralidade, procura destacar e centrar sua análise na visão e versão que dimanam do interior e do mais profundo da experiência dos atores sociais.”
(LOZANO,Jorge Eduardo Aceves In:FERREIRA & AMADO,1998:16)

[17] “Não voltemos à expressão ‘história oral’. Ela se tornou inadequada e só deveria ser empregada a título histórico, para qualificar o período historiográfico dos anos 50 aos 80. (...) Portanto, se a história oral é entendida como um método, ela deve incluir-se na história do tempo presente, e se ela serve para designar a parte pelo todo, a expressão deve ser abandonada em prol da história feita com testemunhas.”
(VOLDMAN,Danièle In:FERREIRA & AMADO,1998:34)

[18] “o elemento único e precioso que as fontes orais trazem para o historiador e que nenhuma fonte possui na mesma medida é a subjetividade do entrevistado. Se o enfoque da pesquisa é amplo e suficientemente articulado um panorama da subjetividade de um grupo pode emergir. As fontes orais não nos dizem apenas o que as pessoas fizeram, mas o que elas querem fazer, o que elas acreditavam estar fazendo, e o que elas agora pensam que fizeram.” (PORTELLI, 1998a:67)

[19] “A utilização de testemunhos orais para reconstruir o passado é um recurso tão antigo quanto a própria história. A história oral, em contrapartida, quer a consideremos como uma especialidade dentro do campo historiográfico ou como uma técnica específica de investigação contemporânea a serviço de várias disciplinas, é um produto do século XX que enriqueceu substancialmente o conhecimento da história contemporânea.
A história oral e a tradição servem de fundamento para reescrever a história, mas também para combater as injustiças do passado. Povos que foram conquistados ou colonizados, no presente recorrem à sua tradição oral e resgatam a sua memória para reclamar direitos territoriais, linguísticos, ou para recuperar uma identidade cultural própria; sobreviventes da luta contra regimes militares ou opressivos, questionam hoje a história oficial com suas memórias subterrâneas e demandam o reconhecimento social e o castigo legal dos responsáveis por violar os direitos humanos. Ainda que de forma menos dramática, a gente comum exige respeito às suas memórias e tradições. “(POZZI,Pablo In: GRACIA e POZZI, 2008:5-6)

As três modalidades de história oral – de vida, temática e tradição oral

Obs: Os trechos de entrevista são material inédito ainda não publicado; pede-se não citar nem divulgar

I. História oral de vida

Definição: “narrativa do conjunto da experiência de vida de uma pessoa” (MEIHY,José Carlos Sebe Bom. Manual de História Oral. São Paulo: Edições Loyola,1998.2.ed.p.45)

“Exemplo”: Líder religiosa de uma igreja neo-pentecostal em Acari, 31 anos
(Entrevista realizada por M.A. em 14/5/1996, na própria Igreja, ver ALVITO,2009)

(M.A.) ... era a senhora falar rapidamente da onde a senhora nasceu, como é que a senhora foi criada, quem eram seus pais e como é que pela primeira vez a senhora se interessou pela religião, como é que foi isso.

Missionária: Marcos, eu nasci lá em Vila Kennedy, na rua [?] número 20, Vila Kennedy. Eu nasci em casa mesmo, não nasci no hospital, eu sou a filha mais nova e tenho 5 irmãos, comigo são cinco, eu sou a mais nova, o outro já partiu, mais novo, e na minha casa só quem é cristão sou eu não tem mais ninguém evangélico. Eu fui levada pra igreja com seis anos, tinha seis anos nesse tempo quando eu fui pra igreja. Eu não fui levada pelos meus pais, meus pais não eram cristãos, fui levada por uma senhora da Igreja Congregacional, uma igreja que tinha lá em Vila Kennedy, ainda tem essa igreja, e essa senhora se chamava Dona Juventina. Eu achava bonito aquelas crianças todas da rua, festival dominical, né que se chama, se chamava, e eu comecei, como diz, naquela coisa toda de criança, gostava muito, fazia muita bagunça na igreja, às vezes eu virava até banco da igreja, criança, né, com seis anos. Eu me lembro como se fosse hoje. E dali eu comecei. Aí as meninas foram se formando, foram ficando mocinhas também. Mas as minhas irmãs também iam com gosto pra igreja, a turma daquelas crianças toda.
E dessas crianças só quem escapou assim que ficou mesmo até hoje na Igreja, né, foi eu e mais duas moças, que hoje seguiram outros caminhos, outras igrejas, que é a Tânia e Janete. E eu fiquei, mas eu fiquei nessa Igreja até os doze anos, porque só tinham pessoas de idade lá, né, então eu não sei, com doze anos, vi as coisas assim mais clara na minha mente aí senti um desejo assim de fazer algo para Deus. Entendeu? Com doze anos. Então eu dizia que queria ser uma missionária, eu não dizia pastora, eu dizia que queria ser uma missionária, desde os meus doze anos. Que eu queria ser uma missionária, que eu queria fazer a obra de Deus. Entendeu? Mais aí eu não entendia nada. Não tinha assim aquela sabedoria dentro da palavra. Eu pensava que ser uma missionária era só chegar ali na frente, pegar o microfone, lê um versículo da Bíblia, pronto, acabou. Mas conforme a gente vai crescendo, né, assim, espiritualmente dizendo, na palavra, não é nada daquilo, a gente tem que estudar, né, entrar bem na palavra de Deus. Então para ser uma missionária não é só chegar ali na frente e falar, tinha que descobrir se eu tinha mesmo um chamado de ser uma missionária. Eu te falei, se eu tinha mesmo o chamado de ser escolhida de ser enviada a um lugar, né, ser uma missionária mesmo.
Daí que eu fui descobrindo como. Eu tinha um pastor chamado pastor Marcos, aliás missionário Borges, hoje ele tá pra São Paulo, ele dizia pra mim assim: ‘Ah, você vai ser uma grande missionária, você tem o chamado.’ Eu ficava toda boba, né? Eu vou ser missionária como? Ele dizia: ‘O tempo, o tempo vai dizer.’ Aí começou a me dar oportunidade na igreja, pra mim pregar, eu não entendia nada, falava tudo gaguejando, tremia muito. Nisso eu falei assim: se a gente quer algo a gente tem que se lançar, né, a gente tem que se esforçar. Nesse momento eu comecei a me lançar, comecei a me esforçar, né, comecei a estudar. Foi aí que Deus começou a fazer uma obra na minha vida, sabe, aí quando foi com dezoito anos fiz um ponto de pregação, ponto de pregação é o início pra você ter uma Igreja, né. Entendeu? É o início. Então o que é que eu fiz? O ponto de pregação lá no [morro do Sena?] perto do presídio de Bangu 1. Aquela coisa toda, né, nesse tempo não tinha ônibus lá pra dentro e lá era difícil, aquele matagal todo, até mesmo eu já arrisquei muito a minha vida, assim, atravessando rua, bêbados me seguindo, né, eu ter que voltar do caminho, bêbados me seguindo. Teve uma vez que um bêbado me seguiu tanto que eu tive que voltar pra trás, e atravessar ali em frente a Fiat, não tem a Fiat ali em Vila Kennedy? Eu atravessei ali, né, que tem uma entrada pra ir pro Guandu, eu atravessei ali, conforme eu atravessei o bêbado também atravessou, quando chegou na pista de subida para a cidade, de descida pra cidade, veio uma Kombi e pegou ele e matou ele, levantou ele alto. E eu fiquei preocupada. Os moradores lá viram, né, e eu fiquei preocupada com aquilo, fiquei com aquele negócio na minha cabeça. Falei: Meu Deus, se eu não tivesse atravessado o homem ali tinha me agarrado, que ele tava com a intenção, ele estava bêbado, eu falei assim: meu Deus, aí os moradores, não fica preocupada não, a senhora não tem culpa, que não sei o quê, aquela coisa. Sempre as pessoas me chamavam de senhora pelo procedimento, né. E nisso foi aquela coisa toda e eu fui pra igreja, encontro de pregação, nervosa. Meu Deus, eu matei um homem. Ai meu Deus, se eu não tivesse atravessado, olha só. Naquele momento eu poderia muito bem desistir de tudo. Talvez você não entenda, né, mas não sei se o Vanderley entende. Profecias, em nome da profecia. A mulher que nunca me conheceu, deu uma [?] pra mim. Eu tava nervosa naquele dia. Mas também não demonstrei nervosismo pra ninguém, eu posso tá com algum problema, mas eu não chego na frente do culto pra mostrar nervosismo. E eu peguei, naquele dia tava ligada ali, orando a Deus, e uma profeta [?] ela pra mim, uma senhora da Assembléia de Deus, dizendo que não era pra eu me preocupar que ele tinha me dado um livramento naquela noite. Eu não ia saber de nada. E naquele dia eu comecei a chorar. Eu falei : meu Deus aquela mulher não sabe de nada, como é que ela descobriu isso? Novinha, foi a primeira profecia. Meu Deus, a mulher não sabe de nada, não tava comigo nem nada, eu tava sozinha, o quê que aconteceu? Eu fiquei aliviada. Depois que acabou a reunião, eu cheguei perto dela, vem cá, o quê que cê tá sabendo? Não, Deus me mostrou que você passou por uma prova agora, um minuto antes de chegar aqui, tava numa perseguição, um homem tava perseguindo a senhora e a irmã pensou que tinha feito, que tinha matado o homem, aquela coisa toda. Aí eu fiquei mais aliviada, bom é a primeira prova que eu passei, eu poderia muito bem parar por ali. Tá entendendo? Foi aí que comecei (...)”

II. História oral temática

Definição: “Por partir de um assunto específico e preestabelecido, a história oral temática se compromete com o esclarecimento ou opinião do entrevistado sobre algum evento definido” (MEIHY,opus cit.,p.51)

Exemplo: O samba segundo dirigentes da Velha Guarda da Portela
(Seu Marinho,66 - diretor; Seu Luis,65; Seu Vieira,74 – presidente)
(Entrevista realizada por M.A. em 25/9/1999, na Portelinha, atual sede da VGP)

"O samba, antes dessa evolução toda, cada bateria de escola de samba batia prum orixá de candomblé, a batida era igual a um atabaque de candomblé. Vou te dar um exemplo: na Portela, quando a bateria era, sem ser isso que é hoje em dia, a bateria, o toque da bateria, a batida da bateria, era de Oxóssi, e assim sucessivamente. Cada escola, tinha sua batida pra um orixá. O samba veio da África prá cá. Até isso. Valorizam ? Não. Porque é negro etc. O samba, ele é um lamento negro. E na língua africana era semba. O nome é semba, na língua africana, nas nações africanas, e o samba é um lamento negro. É um lamento de sofrimento. O samba nasceu na senzala. É que nem aquele samba do Candeia. O samba nasceu na senzala"
Obs: O trecho em questão é a transcrição de uma fala de Seu Marinho.

III. Tradição oral

Definição: “trabalha com a permanência dos mitos e com a visão de mundo de comunidades que têm valores filtrados por estruturas mentais asseguradas em referências do passado remoto (...) Ainda que a tradição oral também implique entrevista com uma ou mais pessoas vivas, ela remete às questões do passado longínquo que se manifestam pelo que chamamos folclore e pela transmissão geracional, de pais para filhos ou de indivíduos para indivíduos” (MEIHY,opus cit.,p.53)

Exemplos: pesquisa sobre histórias “fantásticas” (de lobisomem, almas de escravos, mulher do latão, mula-sem-cabeça etc) contadas em favelas cariocas; tradição oral acerca da libertação dos escravos em comunidades negras (família que se reune para tal propósito no 13 de maio – entrevista de Benedita da Silva à revista Bundas, n.56, 11/7/2000); a tradição oral também pode ser transmitida pela música, como por exemplo, o jongo. É importante notar que a tradição é continuamente reinventada, por exemplo:

EXEMPLO 1: QUESTÃO RACIAL
O Lundu de Pai João (s.XIX): de autoria desconhecida, provavelmente composto no século XIX, após 1837 (pela menção à Casa de Correção), já contém uma crítica à sociedade branca. Alguns versos circulam até hoje, reaproveitados em sambas e rodas de partido alto.


“Quando iô tava na minha tera
Iô chamava capitão
Chega na terra dim baranco
Iô me chama – Pai João

Quando iô tava na minha terá
Comia mia garinha,
Chega na terra dim baranco
Carne seca com farinha.

Quando iô tava na minha tera
Iô chamava generá,
Chega na terra dim baranco
Pega o cêto vai ganhá.

Dizaforo dim baranco
Nó si póri atura
Tá comendo, tá drumindo.
Manda nego trabaiá.

Baranco dize quando more
Jesucrisso que levou,
E o pretinho quando more
Foi cachaça que matou
(...)

Baranco dize – preto fruta,
Preto fruta co rezão;
Sinhô baranco também fruta
Quando panha casião.

Nosso preto fruta garinha
Fruta saco de fuijão;
Sinhô baranco quando fruta
Fruta prata e patacão.

Nosso preto quando fruta
Vai pará na coreção,
Sinhô baranco quando fruta
Logo sai sinhô barão.”

É reaproveitado (e ligeiramente modificado) no Samba de Rubens da Mangueira, gravado por Beth Carvalho no CD “Pérolas do Pagode”, faixa 1 (1998 – Polygram):


“Ô, Isaura
pega na viola
o samba é bom
não vai terminar agora

Lá no Morro de Mangueira
Só não sobe quem não quer
Porque lá tem Tengo-Tengo
Santo Antônio e Chalé

Todo rico quando morre
Foi porque Jesus levou
Todo pobre quando morre
Foi cachaça que matou.”


EXEMPLO 2: ABOLIÇÃO

A) Jongo 1 evocando a libertação dos escravos pela Princesa Isabel, “nas fazendas de café de serra acima [Vale do Paraíba, RJ], ex-escravos cantaram sem parar por três dias e três noites” (esse refrão). Fonte: SILVA,Eduardo. Dom Obá II, o Príncipe do Povo. São Paulo:Companhia das Letras,1997. p.182.

“Eu pisei na pedra/ Pedra balanceou/ Mundo tava torto/ Rainha endireitou”

Segundo Stein, 1990:302: “Jongueiros recorreram aos acontecimentos de 13 de maio para inspiração, referindo-se à atitude vacilante do Imperador (‘pedra’) em relação à abolição, elogiando o ato de sua filha (‘rainha’): Eu pisei na pedra, pedra balanceou/ Mundo ‘tava torto, rainha endireitou”. Para um comentário alternativo, ver também ALVITO,2008

B) Jongo 2 evocando a libertação dos escravos pela Princesa Isabel:

“Tava dormindo/ cangoma* me chamou/ Levanta povo/ que o cativeiro já acabou”

*Cangoma (n.b. angoma, o tambor maior, de tronco escavado e de um couro só, usado no jongo-caxambu): cf. Kik.-kim. ngoma e umb. ongoma, “tambor”
Fonte: LARA,2007.

Que foram fundidos em C):

C) Jongo atribuído a Darcy Monteiro (o saudoso Mestre Darcy da Serrinha, 1932-2002), filho de Vovó Maria Joana (1902-1986), vinda de Valença no interior do Estado do Rio de Janeiro (região do Vale do Paraíba)

“Pisei na pedra/ Pedra balanceou/ Levanta meu povo/ Cativeiro se acabou”

Nenhum comentário:

Postar um comentário