quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Aula 01- 19/8 - Apresentação - Coisa da Antiga e a história de Seu Tião Peixeiro

Oi, pessoal,conforme combinado, vou postar aqui o material da primeira aula. Foi uma aula de apresentação em que cada um explicou o porquê de estar matriculado no curso. Foram distribuídos o programa, o cronograma e a bibliografia do curso que também estão no blog (e na pasta 242). A aula foi aberta com a música de Wilson Moreira e Nei Lopes, a partir da qual refletimos acerca da construção da memória como um diálogo entre passado (objeto de uma seleção) e presente:

Coisa da Antiga
(Wilson Moreira/Nei Lopes)

"Na tina, vovó lavou, vovó lavou
A roupa que mamãe vestiu quando foi batizada
E mamãe quando era menina teve que passar, teve que passar
Muita fumaça e calor no ferro de engomar

Hoje mamãe me falou de vovó só de vovó
Disse que no tempo dela era bem melhor
Mesmo agachada na tina e soprando no ferro de carvão
Tinha-se mais amizade e mais consideração

Disse que naquele tempo a palavra de um mero cidadão
Valia mais que hoje em dia uma nota de milhão
Disse afinal que o que é de verdade

Ninguém mais hoje liga
Isso é coisa da antiga, ai na tina...

Hoje o olhar de mamãe marejou só marejou
Quando se lembrou do velho, o meu bisavô
Disse que ele foi escravo mas não se entregou à escravidão
Sempre vivia fugindo e arrumando confusão

Disse pra mim que essa história do meu bisavô, negro fujão
Devia servir de exemplo a "esses nego pai João"
Disse afinal que o que é de verdade

Ninguém mais hoje liga
Isso é coisa da antiga
Oi na tina..."


Em seguida, dei o exemplo da primeira e desastrosa entrevista que fiz, que só funcionou graças à brilhante capacidade narrativa dos meus entrevistados, sobretudo do Seu Tião Peixeiro:

M.A.: Bom, então, é... prá começar, eu queria que cada um de vocês, um de cada vez, obviamente, falasse um pouquinho da trajetória de vocês antes de chegar em Acari, quer dizer como é que vocês vieram morar aqui em Acari

Tião Peixeiro (Sebastião): A trajetória até chegar...

(M.A.) A trajetória até chegar em Acari. Como é que vocês vieram morar em Acari e depois a trajetória em Acari que levou vocês a fundarem a Associação, como é que você vem a se tornar fundador de uma Associação. Aí a gente já começa a discutir a associação. Porque isso já faz parte até da questão relativa à associação, quer dizer ou seja, como é que alguém vem a se tornar o fundador de uma associação, qual o interesse...

Nestor: Aonde você morava e como é que você veio pra cá

M.A. : Onde nasceu, aquela coisa toda, um pouquinho da história da vida de vocês

Tião Peixeiro: Bem, quando eu vim prá aqui eu morava no Jorge Turco, num quarto alugado, eu trabalhava na empresa de ônibus, que faz a 362, mas eu achando que não dava prá continuar pagando aluguel, eu tinha vontade de ter minha casinha, nem que fosse numa favela, mas minha. Na época eu não tinha condição de comprar um terreno e construir uma casa. Pelo qual eu vim sem conhecer ninguém aqui dentro, nunca tinha vindo aqui dentro, aí vim de bicicleta, procurando, ia comprar um pedacinho lá embaixo, lá dentro do brejo, naquela época cem mil réis, né, foi em setenta e um, aí estiquei prá frente, vim até aqui, chegando aqui uma vizinha me disse: “ó, esse pedaço daí tá desocupado, o moço roçou aí mas não apareceu mais, te aconselho esse pedaço aqui”, que ele também não morava aqui. Mas, a minha situação não tando boa, eu não tinha como fazer a casa. Aí comprei lá no Jorge Turco, um bocado de madeira, umas pernas de três, não tinha dinheiro prá pagar o aluguel, dei um relógio que eu tinha prá pagar o carreto, coloquei aqui a madeira, deixei o vizinho do lado, que aqui tinha um barraquinho de táubua - de madeira, tomando conta prá mim, e a outra vizinha aqui do lado, até que eu pudesse vim e fazer o barraco; aí vim, reuni uns colegas, vim, eu botei as madeiras, joguei as telhas em cima, não tinha madeira prá cercar; comecei a juntar táubua de caixote, que é prá fechar o barraco.
Aí fechei um cômodo com táubua de caixote, não tinha porta prá entrar, vim morar, num barraco de chão, precisava fazer a cozinha, aí fiz a cozinha, não tinha telha, tudo cercado de táubua de caixote, aí eu fui na lixeira, arrumei um encerado, tapei com encerado. Aí fiquei, não tinha conhecimento nenhum. Aí cerquei, daqui até lá na frente, não prá vender, prá dar prás pessoas, de modo que pudesse trazer pessoas conhecidas prá perto de mim, que eu aqui era completamente estranho, aí comecei a dar esses pedaços daqui prá lá, aí comecei a arrumar ambiente com os moradores."


Fonte: Entrevista com Sebastião Carvalho Sobrinho, Jayme de Oliveira e Nestor Roque, em Acari, Rio de Janeiro, 20/3/96

Outros trechos dessa entrevista e a análise da mesma podem ser encontrados em um texto meu apresentado em um simpósio de História Oral: "História Oral e alteridades ou à sombra do Jequitibá". Vou colocar o texto na Pasta na 6a. feira e amanhã no blog.

um abraço a tod@s,

Alvito

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